Responsabilidade Social

Prof. Dr. Emílio Salgueiro
Pedo-psiquiatra

Comer implica uma relação, de necessidade ou de agrado, entre quem come e o que é comido, como entre um bebé e o leite da sua mãe.

A alimentação do bebé resulta de um acto de vontade, bem activo, da mãe que decide ser a altura de alimentar o filho, lendo os sinais que ele transmite de mal-estar por fome. Esta iniciativa da mãe vai produzir agrado no bebé, que se irá sentir saciado.

No entanto, há uma outra forma de alimentação, anterior e decisiva, em que não há uma parceria consciente do que se está a passar: o bebé na barriga da mãe é alimentado sem ele dar por isso, dir-se-ia sem ter que pedir; a mãe que tem um bebé na barriga não participa, com a sua vontade, com a sua capacidade de leitura consciente dos estados do filho, na decisão de o alimentar. Alimentação que vai sucedendo automaticamente sem que nenhum deles a tenha que decidir ou sequer dê por isso.

A mãe capaz de voluntariamente dar leite ao seu bebé já nascido, e o bebé que dá sinais de que necessita de ser cuidado e alimentado, iniciam um bailado complexo, um «pas de deux» bem electivo, que irá durar toda a vida.

Cada vez mais se vai tornando claro que a relação é, desde o início, não só entre o bebé e o leite materno, ou entre o bebé e o seio materno, mas é cada vez mais entre o bebé e a mãe como um todo, incluindo os sentimentos, os pensamentos e as acções, bem próprias da adulta que ela é.

E é por aqui se inicia, verdadeiramente, o grande momento e surge a grande questão que o bebé terá que ir resolvendo: «comer ou não comer», o que lhe for sendo posto à disposição.

Claro que comer ou não comer ultrapassa rapidamente a relação com a comida: apoia-se no processo alimentar inicial, na ingestão do leite ou de outras substâncias nutritivas, mas, mesmo este processo, conduz e implica ofertas e rejeições, generosidades e desprezos, exigências e evitamentos, e isto tanto da comida como de afectos e de actos, tanto de brincadeiras como, a pouco e pouco, de pensamentos e de palavras.

Da qualidade dominante do «pas de deux», de encantamento, proximidade e amor ou de desgosto, afastamento e ódio levarão à criação de modos ou hábitos relacionais específicos, duradouros, consistentes, que irão espraiar-se para os modos de relacionamento com os outros e com a comida.

O início da alimentação a um bebé é um passo muito importante na forma como se irá desenvolver enquanto adulto. É inapropriada a imposição de vegetarianismo aos bebés e às crianças pequenas, ou a facilitação e disponibilidade de comidas muito doces às crianças de qualquer idade, como ´receitas` dos adultos para compensarem o que sentem ser falhas suas no relacionamento afectivo com os filhos.